Saúde e bem-estar

Como saber se o cachorro está com dor (e o gato): 15 sinais

Como saber se o cachorro está com dor, e o gato também: 15 sinais no comportamento, no corpo e na rotina, o que fazer em casa e quando ir ao veterinário.

Publicado em 10 min de leitura

Cachorro com o rosto coberto por um gorro de tricô, deitado no sofá

Resposta rápida

Para saber se o cachorro está com dor, compare o comportamento de hoje com o normal dele. Irritação ao ser tocado, isolamento, gemidos, mancar, evitar escadas e pulos, postura curvada, ofegar em repouso, lamber sempre o mesmo lugar e comer menos são sinais clássicos. No gato, a dor aparece no rosto (orelhas para fora, olhos semicerrados) e no hábito de deixar de pular. Na dúvida, procure o veterinário e nunca dê remédio humano.

Em resumo

  • Desvios do comportamento normal sugerem dor, segundo a AAHA, e o tutor é quem melhor percebe.
  • Cães e gatos disfarçam a dor; a dor crônica aparece aos poucos e costuma ser confundida com velhice.
  • A artrose tem prevalência relatada perto de 40% nos cães e acima de 50% nos gatos, segundo a AAHA (2022).
  • No gato, a Escala de Caretas Felina avalia orelhas, olhos, focinho, bigodes e posição da cabeça.
  • Nunca dê analgésico humano: paracetamol e anti-inflamatórios comuns podem lesar fígado, estômago e rins.

Como saber se o cachorro está com dor (ou o gato): compare o comportamento de hoje com o normal dele. A dor quase sempre aparece primeiro como uma mudança de jeito, de humor ou de rotina, e só depois como gemido ou manqueira evidente.

Esse é o grande desafio. Cães e gatos não dizem onde dói e, por instinto, disfarçam muito bem. Quem convive com eles todos os dias é quem tem mais chance de notar que algo mudou, desde que saiba o que procurar.

Neste guia você encontra os 15 sinais de dor mais importantes, com as diferenças entre cães e gatos, a escala de caretas usada para avaliar gatos, a diferença entre dor aguda e crônica, o que fazer em casa (e o que nunca fazer) e quando procurar o veterinário com urgência.

Por que cães e gatos escondem a dor?

Na natureza, mostrar fraqueza é perigoso. Os gatos, em especial, ocupam o meio da cadeia alimentar: são predadores, mas também podem virar presa, e por isso tendem a disfarçar o desconforto. As diretrizes de dor da American Animal Hospital Association (AAHA), de 2022, resumem bem: gatos podem não expressar a dor abertamente, mas exibem sinais detectáveis.

Com os cães, o problema é outro. Segundo a mesma diretriz, os tutores percebem a diferença entre o comportamento normal e o anormal, mas podem “explicar” os sinais (está velho, está preguiçoso, é o calor) e adiar a ação por vários meses. A AAHA também observa que os tutores muitas vezes não conhecem os sinais de dor e reforça que desvios do comportamento normal sugerem a presença de dor.

Em outras palavras: a dor raramente grita. Ela sussurra em detalhes da rotina.

Como saber se o cachorro está com dor: o método do antes e depois

O jeito mais confiável de identificar dor em casa é comparar. Pergunte-se:

  • O que ele fazia e deixou de fazer? Subir no sofá, buscar a bolinha, receber você na porta.
  • O que ele não fazia e começou a fazer? Rosnar ao ser pego no colo, lamber a mesma pata, dormir longe da família.
  • Desde quando? Mudança de um dia para o outro sugere dor aguda; mudança lenta, ao longo de semanas ou meses, sugere dor crônica.

Duas ferramentas simples ajudam muito o veterinário:

  1. Um diário de sinais. Anote data, o que você viu e em que situação (ao levantar, depois do passeio, à noite).
  2. Vídeos curtos. A AAHA destaca que fotos e vídeos feitos pelo tutor ajudam o veterinário, principalmente quando a dor vai e volta ou só aparece em certas atividades, como andar, subir escadas ou pular, que nem sempre se repetem no consultório. Um vídeo de 20 segundos pode mostrar o que a consulta não mostra.

Conhecer a linguagem do seu pet facilita tudo. Vale ler nossos guias de linguagem corporal do cachorro e de linguagem corporal do gato.

Os 15 sinais de que o cachorro ou o gato está com dor

Nenhum sinal isolado fecha diagnóstico. Mas, quanto mais itens da lista você reconhecer, maior a chance de haver dor, e mais rápido vale procurar ajuda.

No comportamento

  1. Irritação ou agressividade ao toque. O cão carinhoso que rosna ou abocanha quando você encosta em certa região, o gato que bufa, morde ou foge do colo. O Centro de Saúde Canina da Universidade Cornell cita rosnar ou abocanhar fora do padrão e a reação negativa ao toque entre os sinais de dor.
  2. Isolamento. Se esconder, evitar a família, dormir em lugares diferentes. No gato, é clássico: embaixo da cama, dentro do armário, atrás do sofá.
  3. Carência fora do normal. O contrário também acontece: alguns cães ficam grudados no tutor e pedem mais atenção do que o habitual.
  4. Vocalização diferente. Gemidos, ganidos, choro baixo, uivos. O gato pode miar de um jeito novo, rosnar ou sibilar quando a área dolorida é tocada.
  5. Inquietação. Anda de um lado para o outro, deita e levanta, troca de posição o tempo todo e não consegue relaxar.

No corpo e no movimento

  1. Mancar, rigidez ou dificuldade para levantar. O cão costuma poupar uma pata. No gato, a manqueira é bem menos óbvia: o mais comum é ele se mover com mais rigidez e cuidado.
  2. Evitar escadas, pulos e superfícies escorregadias. Recusar o sofá, a cama, o carro, o piso liso. No gato, deixar de subir na janela, no armário ou no arranhador alto é um dos sinais mais importantes: pular para cima e para baixo faz parte do checklist de dor crônica felina citado pela AAHA.
  3. Postura diferente. Costas arqueadas, barriga “encolhida” (a AAHA associa essa postura à dor abdominal), cabeça baixa, rabo numa posição incomum.
  4. Menos energia. Passeios mais curtos, ritmo mais lento, desinteresse pelas brincadeiras. A diretriz da AAHA lembra que falta de apetite e um comportamento mais calmo que o normal podem ser sinais sutis de dor.
  5. Rosto de dor. Orelhas achatadas ou viradas para trás, olhos semicerrados, testa e focinho tensos. Durante o manuseio, a AAHA aponta reações discretas de desconforto, como prender a respiração, lamber os lábios e desviar o olhar.

Na rotina

  1. Lamber, morder ou coçar sempre o mesmo lugar. Muitas vezes é a tentativa de aliviar uma dor localizada. Entenda outras causas em por que o cachorro lambe as patas. No gato, vale também o oposto: parar de se limpar e ficar com o pelo opaco ou embolado.
  2. Ofegar em repouso. Cornell inclui o ofegar excessivo mesmo em repouso, sem calor e sem exercício que expliquem, entre os sinais de dor em cães.
  3. Comer diferente. Comer menos é um dos sinais listados por Cornell. Mastigar mais devagar, derrubar comida, babar demais, passar a pata na boca e perder o interesse por ração seca e petiscos duros são sinais de dor na boca descritos pela VCA Animal Hospitals, que lembra que, em alguns cães, essa dor só aparece no exame veterinário. A prevenção começa por saber como escovar os dentes do cachorro e do gato.
  4. Sono alterado. Dormir muito mais que o normal ou, ao contrário, não conseguir se acomodar e levantar várias vezes à noite.
  5. Xixi e cocô fora do lugar. O “acidente” pode ser dor ao se posicionar, dor articular para entrar na caixa de areia ou dor urinária. Fazer força para urinar ou evacuar pede atenção. Se o gato passou a evitar a caixa, revise também o básico da caixa de areia para gato.

Como saber se o gato está com dor: a escala de caretas felina

Em 2019, pesquisadores da Universidade de Montreal, no Canadá, publicaram na revista Scientific Reports a Escala de Caretas Felina (Feline Grimace Scale), validada para identificar dor aguda pela expressão do rosto do gato. Ela avalia cinco pontos:

O que observarGato confortávelGato com dor
OrelhasVoltadas para a frenteAfastadas e giradas para fora
OlhosAbertosSemicerrados ou apertados
FocinhoRelaxado e arredondadoTenso, achatado, com formato oval
BigodesRelaxados e soltosRetos, apontando para a frente
CabeçaAcima da linha dos ombrosAbaixo da linha dos ombros ou inclinada para baixo, com o queixo em direção ao peito

A escala foi feita para veterinários, mas a AAHA menciona que existe uma versão para tutores, em aplicativo e site. Use como apoio para observar, nunca como substituta da consulta.

Para a dor crônica do gato, a AAHA cita um checklist de seis comportamentos que o tutor consegue avaliar em casa: correr, pular para cima, pular para baixo, subir escadas, descer escadas e perseguir objetos. Se o seu gato não faz algum deles como antes, vale conversar com o veterinário. E lembre que ronronar não é garantia de bem-estar: gatos também ronronam quando estão doentes ou com dor, como explicamos em por que o gato ronrona.

Dor aguda ou dor crônica: qual é a diferença?

Dor agudaDor crônica
Como começaDe repenteAos poucos, ao longo de semanas ou meses
Causas comunsQuedas, cortes, fraturas, cirurgias, infecções, inflamaçõesArtrose, problemas dentários, coluna, câncer
Como apareceGemido, manqueira evidente, reação forte ao toqueMenos pulos, mais sono, irritação, “preguiça”
Por que passa batidoCostuma ser notada logoÉ confundida com idade ou temperamento

A dor crônica é a que mais escapa. Segundo a AAHA, a artrose tem prevalência relatada perto de 40% nos cães e acima de 50% nos gatos, e a maioria dos gatos com mais de 10 anos mostra sinais de dor de artrose. A diretriz também alerta que a dor crônica pode surgir até em cães jovens e lembra que várias raças têm alto risco de displasia de quadril ou de cotovelo.

“Ele está velho” não é diagnóstico. Muitas mudanças que atribuímos à idade são dor tratável, como mostramos no guia de cuidados com cachorro idoso.

O que fazer se o seu pet estiver com dor

  1. Observe sem forçar. Não aperte nem dobre a área para “testar”. Isso aumenta a dor e o risco de mordida.
  2. Anote e filme. Quando começou, o que mudou, se piora com o movimento, se ele está comendo, bebendo e fazendo xixi.
  3. Ofereça conforto. Lugar quieto e aquecido, cama macia, água e comida por perto, tapetes sobre o piso liso e escadas bloqueadas.
  4. Manuseie com cuidado. Até o cão mais dócil pode morder quando sente dor. Para transportar, use uma manta ou toalha como apoio; gatos devem ir na caixa de transporte.
  5. Ligue para o veterinário. Descreva os sinais e envie os vídeos, se a clínica aceitar.

Se o pet acabou de passar por cirurgia, siga à risca o plano de analgesia indicado e observe a recuperação, como detalhamos no guia de castração de cachorro e gato.

Nunca dê remédio humano para dor

Esse é o erro mais perigoso. Segundo a Faculdade de Veterinária da Universidade de Illinois, cães e gatos são mais sensíveis que humanos a anti-inflamatórios como ibuprofeno, naproxeno e aspirina, que podem causar úlceras no estômago e insuficiência renal mesmo em doses baixas. O paracetamol pode ser tóxico para cães e gatos, e os gatos são ainda mais sensíveis, porque não têm as enzimas necessárias para metabolizá-lo, o que leva a dano grave no fígado e prejudica o transporte de oxigênio pelo sangue.

Não existe “dose pequena segura” calculada em casa. Qualquer analgésico, inclusive os de uso veterinário, precisa de indicação e dose definidas pelo veterinário, que considera peso, idade, rins, fígado e outros remédios em uso. Se o pet engoliu remédio humano, procure atendimento imediatamente.

Quando procurar o veterinário com urgência

Vá ao atendimento veterinário imediatamente se o pet:

  • Grita ou chora de dor, não deixa ser tocado ou não consegue se acomodar de jeito nenhum.
  • Tem a barriga inchada e dura, faz força para vomitar sem conseguir ou está muito prostrado.
  • Respira com dificuldade ou está com gengivas pálidas, acinzentadas ou arroxeadas.
  • Faz força para urinar e não sai nada, sinal de emergência principalmente em gatos machos.
  • Não apoia uma pata, arrasta as patas de trás ou sofreu queda, atropelamento ou briga.
  • Tem convulsão ou ficou desorientado de repente.
  • Sente mais dor depois de uma cirurgia, em vez de melhorar.
  • Engoliu qualquer medicamento humano.

Marque uma consulta em breve se notar sinais mais discretos que persistem ou se repetem: menos pulos, mais sono, irritação nova, mudança no apetite ou xixi fora do lugar. Dor crônica também é dor, e tem tratamento. Para manter a prevenção em dia em todas as fases, consulte nosso guia de saúde de cães e gatos.

Quem conhece o normal percebe a dor

Você não precisa ser veterinário para perceber que seu pet está com dor. Precisa conhecer o normal dele: o jeito de deitar, o pulo no sofá, o miado da manhã, a pressa para o passeio. Quando isso muda, anote, filme e procure ajuda, sem medicar por conta própria. Tratar a dor cedo devolve conforto, disposição e convivência.

E quando ele voltar a pular no sofá e a correr para a porta como antes, guarde esse momento. Uma foto desse companheiro de volta à vida de sempre merece um lugar especial, e dá para eternizá-la no mural de 1 milhão de pets, com o nome dele para o Brasil inteiro ver.

Importante: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico-veterinário. Se o seu pet apresentar sinais de emergência, procure atendimento imediatamente.

Perguntas frequentes

Como saber se o gato está com dor?

Observe o rosto e a rotina. Orelhas afastadas e viradas para fora, olhos semicerrados, focinho tenso, bigodes retos para a frente e cabeça abaixo da linha dos ombros indicam dor, segundo a Escala de Caretas Felina. Gatos com dor também deixam de pular em lugares altos, se escondem, descuidam da higiene e fazem xixi fora da caixa.

Posso dar remédio de gente para o cachorro com dor?

Não. Segundo a Faculdade de Veterinária da Universidade de Illinois, cães e gatos são mais sensíveis que humanos a anti-inflamatórios como ibuprofeno e naproxeno, que podem causar úlcera e insuficiência renal mesmo em doses baixas. O paracetamol é especialmente perigoso para gatos. Qualquer analgésico precisa de indicação e dose definidas pelo veterinário.

Cachorro com dor come normalmente?

Às vezes sim, o que engana o tutor. Muitos cães com dor comem menos; mastigar mais devagar, derrubar comida, babar demais ou recusar ração seca e petiscos duros são sinais de dor na boca, segundo a VCA Animal Hospitals. Se o pet parar de comer, procure o veterinário, principalmente se for filhote, idoso ou gato.

Cachorro tremendo é sinal de dor?

Pode ser, mas tremor tem muitas causas, como frio, medo, ansiedade, febre ou intoxicação. Ele pesa mais quando vem junto de outros sinais desta lista, como ofegar em repouso, postura curvada, gemidos ou recusa em se mexer. Nesses casos, procure o veterinário.

Gato ronrona quando está com dor?

Pode ronronar, sim. O ronronar não significa sempre bem-estar: gatos também ronronam quando estão doentes, estressados ou com dor. Por isso, avalie o conjunto: rosto, postura, apetite, higiene e uso da caixa de areia.

Fontes consultadas

  1. 2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats (American Animal Hospital Association (AAHA))
  2. Facial expressions of pain in cats: the development and validation of a Feline Grimace Scale (Scientific Reports (Evangelista et al., 2019))
  3. Recognizing pain in dogs (Cornell Richard P. Riney Canine Health Center)
  4. Dental Pain in Dogs (VCA Animal Hospitals)
  5. Keep Your Medications Away from Pets (University of Illinois College of Veterinary Medicine)

Foto da capa: alachuacountyinternal, via Flickr (Domínio público).

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