Comportamento e adestramento

Por que o gato ronrona? O que a ciência sabe sobre o ronronar

Por que o gato ronrona: como o som é produzido, os motivos (carinho, pedido, estresse e doença), o que dizem os estudos e quando o ronronar pede atenção.

Publicado em 9 min de leitura

Gato tigrado dormindo de olhos fechados sobre uma manta macia

Resposta rápida

O gato ronrona principalmente para se comunicar e, possivelmente, para se acalmar. O som nasce na laringe, em frequências baixas (de cerca de 25 a 150 Hz), e aparece em momentos de conforto, como carinho, colo e amamentação, mas também quando ele pede comida ou atenção, quando está estressado e até quando está doente ou se recuperando de lesões. Por isso, o ronronar só se interpreta junto com a linguagem corporal e o contexto.

Em resumo

  • O ronronar é, antes de tudo, comunicação: entre mãe e filhotes, entre gatos e com as pessoas.
  • Ronronar não é sinônimo de felicidade: gatos também ronronam no veterinário, estressados, doentes ou machucados.
  • Gatos podem usar um ronronar de pedido, com um som parecido com choro embutido, para pedir comida.
  • Um estudo de 2023 mostrou que a laringe do gato produz frequências de ronronar mesmo sem comando nervoso.
  • Ronronar junto com esconder-se, não comer ou respirar com dificuldade é motivo para ir ao veterinário.

Por que o gato ronrona? A resposta curta é: para se comunicar, e possivelmente também para se acalmar. O ronronar é o som de conforto do colo e da amamentação, mas também é usado para cumprimentar, para pedir comida e até em momentos de estresse, doença ou recuperação de lesões. Ou seja, nem todo ronronar quer dizer “estou feliz”.

Esse som baixinho e vibrante é um dos grandes mistérios do mundo pet, e só recentemente a ciência começou a entender como ele é produzido. Sabemos bem mais sobre quando os gatos ronronam do que sobre por que eles desenvolveram esse jeito tão particular de “falar”.

Neste artigo você vai entender o que acontece na garganta do gato, os principais motivos do ronronar, o que há de verdade na ideia de que ele “cura”, como ler o ronronar junto com o corpo do seu gato e quando ele deve acender um sinal de alerta.

Como o gato ronrona: o que acontece na garganta

O ronronar é um som rítmico e contínuo, que acontece tanto na inspiração quanto na expiração. Segundo a pesquisadora Leslie Lyons, da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Califórnia em Davis, em texto de 2006 para a Scientific American, os gatos produzem o ronronar por meio de sinais intermitentes que acionam os músculos da laringe e do diafragma, em frequências que vão de cerca de 25 a 150 Hz. É um som grave, que a gente sente quase mais pela vibração do que pelo ouvido.

Por muito tempo, a explicação dominante foi essa: o cérebro mandaria impulsos rápidos e rítmicos para os músculos da laringe, que abririam e fechariam a passagem do ar. Em 2023, um estudo publicado na Current Biology, liderado por Christian Herbst, da Universidade de Viena, trouxe uma reviravolta. Os pesquisadores examinaram laringes de oito gatos domésticos, isoladas em laboratório e sem nenhum estímulo nervoso, e todas produziram vibrações nas frequências típicas do ronronar (de 25 a 30 Hz) só com a passagem de ar.

O segredo parece estar em pequenas massas de tecido conjuntivo, de até 4 milímetros, embutidas nas pregas vocais dos gatos. Elas parecem deixar as pregas mais “pesadas” e capazes de vibrar em frequências muito baixas. Os autores não descartam que os músculos ajudem no processo, mas o estudo sugere que o ronronar usa o mesmo princípio físico do miado e da maioria das vocalizações dos vertebrados.

O ronronar também não é exclusividade do gato doméstico. Segundo Lyons, a maioria das espécies de felinos produz uma vocalização parecida.

Por que o gato ronrona: os principais motivos

Conforto e vínculo

É o ronronar que todo tutor conhece: no colo, durante o carinho, deitado ao sol ou enroscado na manta preferida. Nesses momentos, ele vem acompanhado de corpo solto, olhos semicerrados e, muitas vezes, piscadas lentas e o gesto de “amassar”. Se o seu gato faz isso, vale entender por que o gato amassa pãozinho: os dois comportamentos costumam andar juntos.

Conversa entre mãe e filhotes

O ronronar começa cedo. Segundo a International Cat Care, filhotes ronronam enquanto mamam, como sinal de contentamento, e a mãe também ronrona para tranquilizar a ninhada. A mesma entidade explica que, ao voltar para o ninho, a mãe usa o ronronar como um sinal discreto de que está tudo bem, sem chamar a atenção de predadores, e os filhotes mamam e ronronam ao mesmo tempo.

Cumprimento e convivência

Ainda segundo a International Cat Care, gatos adultos usam o ronronar como cumprimento e durante a lambedura social, quando um limpa o outro. Isso ajuda a entender por que muitos começam a ronronar assim que o tutor chega em casa, enquanto se esfregam nas pernas dele.

Pedido: o ronronar de “estou com fome”

Já reparou que o ronronar perto do pote, de manhã cedo, soa diferente? A ciência também reparou. Um estudo da equipe de Karen McComb, publicado na Current Biology em 2009 com o título “The cry embedded within the purr” (o choro embutido no ronronar), descreveu um ronronar de solicitação, usado quando o gato quer comida, que carrega um componente parecido com um choro. Segundo os autores, o gato parece aproveitar a sensibilidade humana a sons que pedem cuidado, o que ajuda a explicar por que esse pedido é tão difícil de ignorar. Pesquisas posteriores sobre comunicação entre gatos e humanos citam esse ronronar como um exemplo de como os gatos conseguem atrair e direcionar a atenção das pessoas.

Estresse, doença e recuperação

Esse é o motivo que mais surpreende. Segundo Lyons, gatos com frequência ronronam sob pressão, como numa visita ao veterinário, ou quando estão se recuperando de uma lesão. A International Cat Care acrescenta que eles também ronronam quando estão doentes ou machucados. Ninguém sabe ao certo por quê: uma das hipóteses citadas pela entidade é que o ronronar sirva para o gato se acalmar justamente quando se sente mais vulnerável, algo como respirar fundo quando estamos nervosos; outra é que a vibração ajude na recuperação. Por isso, o som sozinho nunca deve tranquilizar o tutor de que está tudo bem.

O ronronar cura? O que se sabe sobre a vibração

Você já deve ter lido que “o ronronar do gato cura ossos”. A ideia tem uma origem real, mas é preciso cuidado. Lyons explica que frequências na faixa do ronronar foram associadas, em estudos, à melhora da densidade óssea e da cicatrização. Daí surgiu a hipótese de que o ronronar funcione como um mecanismo de baixo gasto de energia para estimular músculos e ossos do próprio gato, um animal que passa boa parte do dia em repouso.

O que dá para dizer com segurança:

  • É uma hipótese, interessante e plausível, mas não um fato comprovado sobre o gato.
  • Não há comprovação de que o ronronar trate doenças em gatos ou em pessoas.
  • Ronronar não substitui tratamento. Um gato machucado que ronrona continua precisando de veterinário.

Dito isso, quem tem gato sabe: aquele ronronar no colo depois de um dia difícil faz bem para o humano também. E isso já basta.

Como saber o que o ronronar do seu gato quer dizer

O ronronar é como uma palavra que muda de sentido com o tom e a situação. Para “traduzir”, olhe o corpo inteiro e o contexto:

ContextoLinguagem corporalSignificado provável
No colo, recebendo carinhocorpo solto, olhos semicerrados, piscadas lentasconforto e vínculo
Na sua chegada em casarabo para cima, se esfregando nas pernascumprimento amigável
Perto do pote ou da cozinharonronar insistente, misturado a miados, rabo para cimapedido de comida ou atenção
Na clínica ou no transportecorpo encolhido, orelhas para trás, pupilas dilatadasestresse (talvez uma forma de se acalmar)
Escondido, quieto, sem comerpostura curvada, olhos apertados, pouca reaçãopossível dor ou doença
Durante o carinho, de repenterabo chicoteando, orelhas para trás, pupilas dilatadasexcesso de estímulo: hora de parar

A última linha merece atenção. Segundo o Cornell Feline Health Center, da Universidade Cornell, gatos que reagem mal ao carinho, em muitos casos, mostram antes pupilas dilatadas, rabo chicoteando e orelhas indo para trás. Um gato pode estar ronronando e, segundos depois, avisar que já chega. Respeitar esse limite evita arranhões e fortalece a confiança.

Uma dica que a ciência já testou: a piscada lenta. Um estudo das universidades de Sussex e Portsmouth publicado na Scientific Reports em 2020 mostrou que gatos respondem às piscadas lentas dos tutores com estreitamento dos próprios olhos e se aproximam mais da mão de uma pessoa desconhecida depois que ela pisca devagar para eles do que quando ela mantém o rosto neutro. Se o seu gato ronrona e pisca devagar para você, experimente responder do mesmo jeito.

Para aprender os outros sinais (rabo, orelhas, bigodes e postura), leia o guia completo de linguagem corporal do gato. E, se em casa também tem cachorro, vale conhecer a linguagem corporal do cachorro: os dois “idiomas” são bem diferentes, e conhecer ambos ajuda a evitar mal-entendidos em casa.

Gato que não ronrona é infeliz?

Não necessariamente. Cada gato tem seu volume e seu repertório. Alguns ronronam tão baixo que só se percebe encostando a mão no peito; outros ronronam raramente, ou só em situações muito específicas. Ausência de ronronar, por si só, não indica tristeza.

O bem-estar do gato se avalia pelo conjunto: ele come bem, usa a caixa de areia normalmente, brinca, explora a casa, procura a companhia da família e tem momentos de corpo relaxado? Então provavelmente está tudo certo, ronronando ou não.

O que merece atenção é a mudança: um gato que sempre ronronou e parou, ou que passou a ronronar em situações novas, junto com outras alterações de comportamento. Mudanças assim podem ter relação com doença, dor, idade ou estresse, e merecem uma conversa com o veterinário.

Quando o ronronar pede atenção do veterinário

Como o ronronar também aparece quando o gato está doente ou machucado, ele pode mascarar um problema. Procure o veterinário se o seu gato ronrona e, ao mesmo tempo:

  • se esconde mais do que o normal ou evita ser tocado;
  • para de comer ou come bem menos;
  • fica apático, curvado ou sem vontade de se mexer;
  • muda os hábitos na caixa de areia (vai muitas vezes, faz força, faz fora);
  • vomita com frequência (veja quando o gato vomitando é sinal de alerta);
  • respira com a boca aberta ou com esforço (nesse caso, é emergência).

O rosto do gato também dá pistas. Pesquisadores que desenvolveram a Feline Grimace Scale, uma escala de expressões faciais de dor validada e publicada na Scientific Reports em 2019, avaliam cinco pontos: posição das orelhas, olhos apertados, tensão no focinho, mudança nos bigodes e posição da cabeça. A escala foi criada para veterinários avaliarem dor aguda, mas ajuda o tutor a saber o que observar: orelhas afastadas e viradas para fora, olhos apertados e focinho tenso, num gato quieto e encolhido, são sinais de que algo pode estar doendo. O guia de como saber se o cachorro está com dor, que também traz os sinais nos gatos, detalha o que observar. E não ofereça remédio por conta própria: segundo a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Illinois, medicamentos de uso humano podem ser tóxicos para pets, e os gatos são especialmente sensíveis a alguns deles.

Um som que é só dele

O ronronar é um dos jeitos mais bonitos que o gato tem de se comunicar com a gente. Na maioria das vezes, quer dizer “estou bem aqui com você”. Às vezes, quer dizer “estou com fome” ou “estou tentando ficar calmo”. Aprender a diferença, olhando o corpo e o contexto, é a melhor forma de cuidar dele e de entender por que o seu gato é tão único. Se você gosta desses detalhes, as curiosidades sobre gatos trazem muitos outros.

E aquele ronronar de colo que acalma a casa inteira merece ser lembrado: você pode eternizar a foto do seu gato no mural de 1 milhão de pets e mostrar pro Brasil inteiro quem é o dono dessa trilha sonora. Cada quadradinho custa R$ 1, e o pagamento é por PIX, em minutos.

Perguntas frequentes

Gato ronronando está sempre feliz?

Não. O ronronar aparece em momentos de conforto, mas também em situações de estresse, como a visita ao veterinário, e quando o gato está doente ou se recuperando de uma lesão. Olhe o corpo: olhos semicerrados e corpo solto indicam bem-estar; corpo encolhido, orelhas para trás e pupilas dilatadas indicam tensão.

Como o gato faz o barulho de ronronar?

O som é produzido na laringe, durante a inspiração e a expiração. A explicação clássica atribui o ronronar a impulsos que acionam os músculos da laringe e do diafragma, mas um estudo publicado em 2023 na Current Biology mostrou que laringes de gato isoladas vibram em frequências de ronronar, de 25 a 30 Hz, mesmo sem estímulo nervoso, graças a pequenas massas de tecido embutidas nas pregas vocais.

Por que o gato ronrona e amassa pãozinho ao mesmo tempo?

As duas coisas costumam aparecer juntas em momentos de relaxamento e vínculo, como no colo ou numa manta macia. Os dois comportamentos vêm da fase de filhote: ele ronrona enquanto mama e amassa a barriga da mãe para estimular a saída do leite. No adulto, a combinação geralmente indica que ele está confortável e se sentindo seguro.

O ronronar do gato tem poder de cura?

É uma hipótese. Pesquisadores observaram que o ronronar ocorre em frequências que, em estudos, foram associadas à melhora da densidade óssea e da cicatrização, e levantam a hipótese de que ele ajude a manter os músculos e os ossos do próprio gato. Não há comprovação de que o ronronar trate doenças, e ele não substitui o veterinário.

Meu gato não ronrona. Ele é infeliz?

Não necessariamente. Alguns gatos ronronam baixo, raramente ou só em situações específicas. O bem-estar se avalia pelo conjunto: apetite, uso da caixa de areia, brincadeiras, interesse pela família e linguagem corporal relaxada. Se o gato parou de ronronar de repente junto com outras mudanças, vale uma consulta.

Fontes consultadas

  1. Why Do Cats Purr? (Scientific American (resposta de Leslie A. Lyons, UC Davis))
  2. Cat Communication (International Cat Care)
  3. Why do cats..? (International Cat Care)
  4. Domestic cat larynges can produce purring frequencies without neural input (Herbst e colegas, 2023) (Current Biology)
  5. The cry embedded within the purr (McComb e colegas, 2009) (Current Biology)
  6. The role of cat eye narrowing movements in cat–human communication (Humphrey e colegas, 2020) (Scientific Reports)
  7. Facial expressions of pain in cats: the development and validation of a Feline Grimace Scale (Evangelista e colegas, 2019) (Scientific Reports)
  8. Feline Behavior Problems: Aggression (Cornell Feline Health Center)
  9. Keep Your Medications Away from Pets (University of Illinois College of Veterinary Medicine)

Foto da capa: rawpixel, via rawpixel (CC0 (domínio público)).