Resposta rápida
Leishmaniose canina, ou leishmaniose visceral, é uma doença crônica causada por um protozoário do gênero Leishmania e transmitida pela picada do mosquito-palha. No cachorro, causa emagrecimento, queda de pelo, feridas no focinho e nas orelhas, unhas compridas e problemas nos rins e nos olhos. O cão é o principal reservatório na cidade, e a doença atinge pessoas. Tem tratamento com produto registrado no MAPA, que controla mas não elimina o parasita.
Em resumo
- A leishmaniose é transmitida pela picada da fêmea do mosquito-palha, ativo ao entardecer e à noite.
- Entre 40% e 60% dos cães infectados podem não ter sintomas, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte.
- Emagrecimento, pelo opaco, feridas no focinho e nas orelhas e unhas crescidas são sinais clássicos.
- O tratamento só pode ser feito com produto veterinário registrado no MAPA; melhora os sinais, mas o cão continua portador.
- Repelente específico para cães, limpeza do quintal e proteção ao entardecer são a base da prevenção.
- Em pessoas, a leishmaniose visceral sem tratamento pode matar até 90% dos casos, segundo o Ministério da Saúde.
Leishmaniose canina é uma doença crônica e grave causada por um protozoário do gênero Leishmania e transmitida ao cachorro pela picada do mosquito-palha. Ela ataca pele, rins, fígado, baço, olhos e medula óssea, pode levar meses ou anos para dar sinais e é uma zoonose: o mesmo mosquito leva o parasita do cão infectado para as pessoas. Tem tratamento, que controla a doença sem eliminar o parasita, e a prevenção começa por evitar a picada.
No Brasil, a leishmaniose visceral, também chamada de calazar, deixou de ser uma doença rural do Nordeste e hoje aparece em cidades grandes de todas as regiões. Para muitos tutores, o diagnóstico chega como um choque, junto com dúvidas sobre tratamento, eutanásia e risco para a família.
Neste guia você vai entender como o parasita chega ao seu cachorro, quais sinais observar, como é o diagnóstico, o que a lei permite no tratamento, como proteger o cão e a casa e o que mudou com a vacina.
O que é a leishmaniose canina?
A leishmaniose visceral é, segundo o Ministério da Saúde, “uma zoonose de evolução crônica, com acometimento sistêmico”. No Brasil, o agente é a Leishmania infantum (também chamada de L. chagasi), e o cão é o principal reservatório do parasita em área urbana. Isso quer dizer que, nas cidades, o cachorro infectado é a principal fonte de onde o mosquito tira o parasita.
Existem duas formas principais de leishmaniose no país:
| Leishmaniose visceral (calazar) | Leishmaniose tegumentar | |
|---|---|---|
| O que atinge | Órgãos internos (fígado, baço, medula, rins) e pele | Pele e mucosas |
| Papel do cão | Principal reservatório urbano | Pode ser infectado, mas não é o reservatório principal |
| Gravidade em pessoas | Sem tratamento, pode matar até 90% dos casos, segundo o Ministério da Saúde | Feridas na pele que exigem tratamento |
Quando se fala em “leishmaniose canina” no dia a dia, quase sempre é a visceral, e é dela que este guia trata.
A leishmaniose é comum no Brasil?
Sim. Uma apresentação da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde de 2017 registrava cerca de 3.200 casos humanos novos em 2016, com letalidade de 7,8%, 39% dos casos em crianças de 0 a 9 anos e casos caninos em 25 unidades da federação. O Brasil aparece entre os poucos países que concentram a maior parte dos casos do mundo. O Manual Veterinário Merck cita a América do Sul entre as regiões onde a doença em cães é comum.
Como o cachorro pega leishmaniose?
Pela picada da fêmea do flebotomíneo, o mosquito-palha, também chamado de asa-dura, tatuquira ou birigui. A principal espécie transmissora no Brasil é a Lutzomyia longipalpis. O ciclo:
- A fêmea do mosquito pica um cão infectado e ingere o parasita.
- O parasita se desenvolve dentro do mosquito.
- Na picada seguinte, o mosquito transmite o parasita a outro cão ou a uma pessoa.
Conhecer o mosquito ajuda a se proteger. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte:
- Mede de 2 a 3 milímetros, tem cor clara, amarelada ou de palha, e pousa com as asas abertas e levantadas.
- É ativo ao entardecer e à noite.
- Voa pouco, cerca de 250 metros, e em pequenos saltos.
- As larvas se desenvolvem em solo úmido, sombreado e rico em matéria orgânica: folhas caídas, frutos apodrecidos, fezes de animais, galinheiros.
Por isso quintais com folhas acumuladas, árvores frutíferas e galinheiro são o ambiente perfeito para ele.
Quais são os sintomas da leishmaniose canina?
O primeiro desafio é que muitos cães não mostram nada. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, de 40% a 60% dos cães de uma população infectada podem não ter sintomas, e o período de incubação, segundo o Merck, vai de meses a vários anos. Mesmo sem sinais, o cão infectado pode transmitir o parasita ao mosquito.
Quando a doença aparece, os sinais variam muito:
| Onde | Sinais mais comuns |
|---|---|
| Estado geral | Perda de apetite, emagrecimento, fraqueza, febre irregular |
| Pele e pelo | Pelo opaco, queda de pelo (muitas vezes começando na cabeça), descamação intensa, feridas no focinho, na face e nas pontas das orelhas |
| Unhas | Crescimento exagerado das unhas |
| Olhos | Conjuntivite e outras inflamações oculares |
| Sangue | Anemia, sangramento pelo nariz |
| Órgãos | Fígado e baço aumentados, diarreia crônica |
| Rins | Insuficiência renal, uma das complicações mais graves |
| Locomoção | Mancar, dificuldade nas patas de trás em estágios avançados |
O Merck descreve a pele com queda de pelo e descamação intensa, que costuma começar na cabeça, e cita insuficiência renal, doença nos olhos e sangramento nasal entre as manifestações. Muitos desses sinais lembram outras doenças, como sarna, alergias, doença do carrapato e doença renal, e só exames diferenciam.
Quando procurar o veterinário
Marque consulta nos próximos dias se o seu cachorro:
- Está emagrecendo sem motivo aparente.
- Tem queda de pelo, descamação ou feridas no focinho e nas orelhas que não saram.
- Está com as unhas crescendo muito mais rápido que o normal.
- Mora ou viajou para uma região com casos de leishmaniose, mesmo sem sinais.
Procure atendimento com urgência se houver:
- Sangramento pelo nariz.
- Vômitos, falta de apetite total e muita sede ou muito xixi, sinais possíveis de problema nos rins.
- Gengiva muito pálida, fraqueza intensa ou desmaio.
- Olhos muito vermelhos, doloridos ou opacos.
Cães escondem desconforto; o guia como saber se o cachorro está com dor ajuda a perceber o que nem sempre é óbvio.
Como é feito o diagnóstico?
Segundo o Ministério da Saúde e o Merck, o diagnóstico usa exames de sangue que detectam anticorpos contra o parasita ou o próprio parasita:
- Teste rápido imunocromatográfico (TR), muito usado como triagem pelos serviços de saúde.
- ELISA, usado para confirmar. Em Belo Horizonte, por exemplo, o caso canino é confirmado com teste rápido e ELISA reagentes.
- Exame parasitológico, que procura o parasita em amostras de medula óssea, linfonodo ou pele. É o diagnóstico de certeza, mas um resultado negativo não exclui a infecção.
- PCR, que detecta o material genético do parasita em laboratórios especializados.
Depois do diagnóstico, o veterinário pede hemograma, bioquímica e exame de urina para avaliar rins e fígado e definir o estágio da doença, o que orienta o tratamento e o prognóstico.
Se o exame foi feito pelo serviço público e você discorda do resultado, pergunte sobre contraprova: em Belo Horizonte, por exemplo, há prazo para repetir o exame em laboratório da rede.
Leishmaniose canina tem cura? O que diz a lei sobre o tratamento
Durante anos, a única saída oferecida a muitos tutores foi a eutanásia. Isso mudou, mas com regras.
O que a lei permite
A Portaria Interministerial nº 1.426/2008 proíbe tratar a leishmaniose visceral em cães com produtos de uso humano ou produtos não registrados no MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária). A mesma portaria criou o caminho para registrar um produto veterinário específico, com ensaios clínicos e aprovação conjunta do MAPA e do Ministério da Saúde. Segundo a apresentação da SVS/MS, um produto veterinário aprovado por esse caminho está disponível no mercado desde dezembro de 2016, com um princípio ativo que não é usado no tratamento de pessoas.
Na prática:
- O tratamento é permitido, com produto veterinário registrado e prescrição do médico-veterinário.
- É vedado usar remédio de gente ou produto sem registro.
- O tratamento é uma escolha individual do tutor, não uma medida de saúde pública, como explica a Prefeitura de Belo Horizonte.
O que esperar do tratamento
Segundo a apresentação da SVS/MS, o produto registrado mostrou remissão e redução dos sinais clínicos e redução significativa da quantidade de parasitas, e metade dos cães que infectavam o mosquito deixaram de infectar. Mas há limites importantes:
| Ponto | O que dizem as fontes |
|---|---|
| Cura | Os medicamentos atuais não eliminam totalmente o parasita nas pessoas e nos cães (Ministério da Saúde) |
| Duração | Em geral de 6 a 12 meses ou mais, com combinação de medicamentos definida pelo veterinário (Merck) |
| Recaídas | Comuns; o cão pode seguir portador (Merck) |
| Transmissão | O cão tratado pode continuar como fonte de infecção para o mosquito (Ministério da Saúde) |
| Acompanhamento | Exames periódicos por toda a vida, principalmente da função dos rins |
Por isso, cão em tratamento continua precisando de repelente o tempo todo: é o que protege a família e os vizinhos.
E a eutanásia?
A eutanásia de cães infectados continua prevista como uma das formas de controle nas normas do Ministério da Saúde, que recomenda que ela seja feita de forma integrada às outras ações. A própria apresentação da SVS/MS reconhece que os estudos sobre a eficácia da estratégia são contraditórios e lista limitações, como a demora entre o exame e o recolhimento do cão e a reposição por cães novos e suscetíveis. Em Belo Horizonte, por exemplo, o tutor de cão positivo pode escolher entre o tratamento particular e a entrega do animal ao serviço de zoonoses, com termo de consentimento.
É uma decisão difícil. Converse com o veterinário sobre o estágio da doença, a qualidade de vida do cão, o custo e a sua possibilidade de manter o tratamento e a proteção contra o mosquito por toda a vida.
Como prevenir a leishmaniose canina
Não existe proteção única. A prevenção combina proteção do cão contra a picada, cuidado com o ambiente e consultas periódicas.
Repelente no cachorro
- Coleira ou produto repelente com ação contra o mosquito-palha, indicado pelo veterinário. O Merck recomenda inseticidas que repelem o flebotomíneo, principalmente onde a doença é comum. O relatório da WSAVA para a América Latina (Day e colaboradores, 2020) afirma que, em áreas endêmicas, usar inseticidas, especialmente coleiras, para evitar as picadas é mais importante do que vacinar.
- Respeite o prazo de troca. A coleira com deltametrina a 4% distribuída pelo Ministério da Saúde em municípios prioritários precisa ser trocada a cada 6 meses, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, e é usada em cães a partir de 3 meses.
- Nem toda coleira antipulgas repele o mosquito-palha. Confira com o veterinário se o produto tem essa indicação.
Muitos produtos que protegem contra o mosquito também agem contra pulgas e carrapatos; o guia como acabar com pulgas e o texto sobre a doença do carrapato ajudam a montar um controle de parasitas completo.
No ambiente
As recomendações do Ministério da Saúde e da Prefeitura de Belo Horizonte:
- Limpe o quintal com frequência, retirando folhas, frutos caídos e qualquer matéria orgânica em decomposição.
- Dê destino adequado ao lixo orgânico.
- Limpe os abrigos dos animais e mantenha galinheiros e canis longe da casa.
- Evite adubo orgânico perto de casa em áreas de transmissão.
- Telas de malha fina em janelas e portas, principalmente em canis.
- Recolha o cão para dentro ao entardecer e à noite, horário de maior atividade do mosquito.
Vacina: o que mudou
A única vacina contra leishmaniose canina registrada no Brasil teve a fabricação e a venda suspensas pelo MAPA em maio de 2023, depois que lotes foram reprovados em análises oficiais por teor de proteína abaixo do mínimo exigido. Mesmo quando estava disponível, o Ministério da Saúde a recomendava apenas como proteção individual, em cães negativos e sem sintomas, e não como estratégia de controle da doença em pessoas. Pergunte ao veterinário sobre a situação atual antes de qualquer decisão. O calendário das vacinas essenciais está em vacinas para cachorro.
Exames de rotina
Em áreas com casos, peça ao veterinário para incluir o teste de leishmaniose no check-up anual, mesmo que o cão pareça saudável. E, se for viajar com ele para regiões endêmicas, proteja-o antes da viagem; o guia viajar com cachorro de carro ou de avião traz um checklist completo.
Leishmaniose em pessoas: o que a família precisa saber
Segundo o Ministério da Saúde, a leishmaniose visceral em pessoas causa febre de longa duração, aumento do fígado e do baço, perda de peso, fraqueza e anemia. Sem tratamento, pode levar à morte em até 90% dos casos. O tratamento humano é gratuito no SUS.
O que fazer:
- Se alguém da casa tiver febre prolongada, emagrecimento e barriga inchada, procure uma unidade de saúde e conte que mora em área com casos ou que há cão positivo em casa.
- Crianças e pessoas com imunidade baixa merecem atenção especial.
- A transmissão é pela picada do mosquito; o carinho no cão não é a via descrita. A melhor forma de proteger a família é proteger o cão das picadas e cuidar do quintal.
Erros comuns
- Achar que cachorro sem sintoma não tem leishmaniose. Muitos infectados parecem saudáveis.
- Usar coleira antipulgas comum achando que protege do mosquito-palha.
- Atrasar a troca da coleira repelente.
- Interromper o tratamento quando o cão melhora.
- Tratar com remédio de gente, o que é proibido e perigoso.
- Abandonar o cão positivo, o que espalha a doença e é crime de maus-tratos (Lei 9.605/1998, art. 32, com pena aumentada para cães e gatos pela Lei 14.064/2020).
Proteger o cão é proteger a casa toda
A leishmaniose canina é séria, mas hoje o tutor tem mais caminhos do que tinha há dez anos: diagnóstico, tratamento legal e prevenção eficaz com repelente e cuidado com o ambiente. Se o seu cachorro mora em área com casos, converse com o veterinário sobre exame, proteção contra o mosquito e check-ups. O guia de saúde de cães e gatos organiza vacinas, controle de parasitas e consultas em cada fase da vida, e outras doenças que exigem atenção nos filhotes estão no guia sobre cinomose.
Cada dia bem vivido ao lado dele merece ser lembrado: quando quiser, você pode eternizar a foto do seu cachorro no mural de 1 milhão de pets.
Importante: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico-veterinário. Se o seu pet apresentar sinais de emergência, procure atendimento imediatamente.
Perguntas frequentes
Leishmaniose canina tem cura?
Não há cura parasitológica: o tratamento controla a doença, melhora os sinais e reduz a quantidade de parasitas, mas não elimina o parasita por completo. Segundo o Manual Veterinário Merck, o tratamento costuma durar de 6 a 12 meses ou mais, e recaídas são comuns. O Ministério da Saúde lembra que o cão tratado pode continuar sendo fonte de infecção para o mosquito, por isso o acompanhamento e o uso de repelente seguem por toda a vida.
Leishmaniose passa do cachorro para as pessoas?
Não diretamente. A transmissão descrita pelo Ministério da Saúde é pela picada da fêmea do mosquito-palha, que se infecta ao picar um cão doente e depois pica uma pessoa. Carinho, lambida e convivência não são a via de transmissão descrita. Por isso, proteger o cão das picadas protege também a família.
Cachorro com leishmaniose precisa ser sacrificado?
Não obrigatoriamente. A eutanásia segue prevista como medida de controle nas normas do Ministério da Saúde, mas o tratamento com produto veterinário registrado no MAPA é permitido desde 2016, como escolha individual do tutor, com acompanhamento veterinário. A decisão deve ser tomada com o veterinário, considerando o estado do cão e a situação do município.
Existe vacina contra leishmaniose canina?
A única vacina registrada no Brasil teve fabricação e venda suspensas pelo MAPA em maio de 2023, depois de lotes reprovados em análises oficiais. Mesmo quando estava disponível, o Ministério da Saúde a considerava uma proteção individual, só para cães negativos, e não uma medida de controle. Pergunte ao veterinário sobre a situação atual e, de qualquer forma, mantenha o repelente.
Quanto tempo vive um cachorro com leishmaniose?
Depende muito do estágio em que a doença foi descoberta, principalmente da situação dos rins. Cães diagnosticados cedo e tratados podem viver bem por anos, com retornos periódicos. Quando o diagnóstico chega com insuficiência renal avançada, o prognóstico é mais reservado. Só o veterinário, com exames, consegue estimar o caso do seu cão.
Gato pega leishmaniose?
Gatos podem ser infectados, mas o cão é o principal reservatório da leishmaniose visceral nas cidades, segundo o Ministério da Saúde. Se o seu gato tiver feridas que não saram, leve ao veterinário: entre as doenças que precisam ser diferenciadas estão a esporotricose e a própria leishmaniose.
Fontes consultadas
- Leishmaniose visceral (Ministério da Saúde)
- Leishmaniose: vacina, tratamento ou sacrifício animal como estratégia de saúde única? (apresentação da SVS/MS, 2017) (Ministério da Saúde, publicado pelo MAPA)
- Leishmaniose visceral canina (Prefeitura de Belo Horizonte (Secretaria Municipal de Saúde))
- Leishmaniosis (Visceral Leishmaniasis) in Dogs (Merck Veterinary Manual (versão para tutores))
- Recommendations on vaccination for Latin American small animal practitioners: a report of the WSAVA Vaccination Guidelines Group (Day et al., 2020) (Journal of Small Animal Practice)
- Mapa suspende fabricação e venda e determina o recolhimento de lotes de vacina contra leishmaniose (Notícias Agrícolas (com informações do MAPA, 2023))
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