Comportamento e adestramento

Gato arranhando o sofá: como resolver sem brigar com ele

Gato arranhando o sofá? Entenda por que ele arranha, como escolher e posicionar o arranhador certo e por que a desungulação é mutilação proibida no Brasil.

Publicado em 10 min de leitura

Gato branco em pé arranhando um poste de sisal dentro de casa

Resposta rápida

Gato arranhando o sofá está cuidando das unhas, alongando o corpo e deixando marcas de cheiro, um comportamento natural que não deve ser punido. Para resolver, ofereça um arranhador firme, alto e com textura parecida com a do sofá, coloque-o ao lado do móvel e perto de onde ele dorme, recompense o uso e deixe o estofado menos atraente por um tempo. A desungulação é mutilação e é proibida no Brasil.

Em resumo

  • Arranhar é necessidade do gato: mantém as unhas, alonga a musculatura e marca o território com cheiro.
  • O arranhador precisa ser estável, tão alto quanto o gato esticado e com textura que ele goste.
  • Posição importa: ao lado do sofá, perto da cama dele e nas áreas de passagem.
  • Bronca, grito e borrifo de água aumentam o estresse e não ensinam onde arranhar.
  • A desungulação (onicectomia) amputa a ponta dos dedos e é proibida pelo CFMV.

Gato arranhando o sofá não é birra, vingança nem falta de educação: é um gato fazendo exatamente o que a natureza mandou. Arranhar mantém as unhas saudáveis, estica a musculatura e deixa recados de cheiro para marcar território. O sofá só virou alvo porque é firme, tem textura gostosa e fica bem no meio da casa, onde a família passa o dia.

Por isso, a pergunta certa não é “como faço meu gato parar de arranhar”, e sim “como faço meu gato arranhar no lugar certo”. Isso tem resposta, e não envolve bronca, borrifo de água ou cirurgia.

Neste guia você vai entender por que ele arranha, montar um plano em seis passos (com tabela para escolher o arranhador), saber o que não fazer e por que a desungulação é mutilação e é proibida no Brasil.

Por que o gato arranha (e por que justamente o sofá)

A International Cat Care, organização britânica de bem-estar felino, resume as razões: o gato arranha para manter as unhas saudáveis, exercitar os músculos das patas da frente e da coluna e se comunicar, marcando território. O movimento solta a camada externa e gasta da unha, revelando a ponta nova por baixo. É por isso que você encontra “cascas” de unha perto do arranhador.

Tem também o cheiro. O Cornell Feline Health Center, da Universidade Cornell, explica que arranhar é em grande parte um comportamento de marcação: glândulas especiais das patas depositam odor no local. Somado às marcas visíveis no tecido, o recado fica claro para qualquer gato: “eu moro aqui”. Segundo a International Cat Care, arranhar ainda dá ao gato uma sensação de segurança.

E por que o sofá? Porque ele reúne tudo o que o gato procura:

  • firmeza: não balança quando o gato puxa com força;
  • altura e comprimento: dá para se esticar inteiro;
  • textura: muitos tecidos lembram casca de árvore ou sisal;
  • localização: fica na área social, onde estão as pessoas e os cheiros da família;
  • horário: muitos gatos arranham logo ao acordar, e o sofá costuma ser o lugar da soneca.

Entender esses sinais faz parte de conhecer a linguagem corporal do gato. E, se vale de consolo, o mesmo instinto de marcar com as patas explica outro hábito bem mais fofo: o gato que amassa pãozinho.

Gato arranhando o sofá: o plano para resolver em 6 passos

1. Ofereça o arranhador certo

O erro mais comum é comprar um arranhador pequeno e leve, que tomba na primeira puxada. Gato não volta a usar algo que balança. As recomendações da International Cat Care e de Cornell coincidem:

  • Altura: pelo menos tão alto quanto o gato em pé nas patas de trás, com as da frente esticadas.
  • Estabilidade: base pesada ou fixação na parede. Precisa aguentar a puxada sem mexer.
  • Textura: a mais parecida possível com a que ele já escolheu. Se ele ataca o braço do sofá de tecido áspero, sisal é ótima aposta. Se arranha tapete, um arranhador horizontal de carpete ou papelão pode agradar mais.
  • Orientação: alguns gatos preferem arranhar de pé (vertical), outros deitados (horizontal). Observe o seu.

2. Coloque no lugar certo

Arranhador escondido na área de serviço não compete com o sofá da sala. A International Cat Care recomenda deixá-lo perto da cama favorita, porque os gatos costumam arranhar depois de dormir, e nas áreas onde o gato passa mais tempo. Cornell sugere começar com o arranhador exatamente ao lado do ponto que ele já arranha e, se você quiser, ir movendo aos poucos para o local definitivo.

Em casa com mais de um gato, a regra é parecida com a da caixa de areia para gato: um arranhador por gato, mais um extra, em lugares diferentes.

3. Torne o arranhador irresistível

  • Esfregue erva-de-gato (catnip) no arranhador, se o seu gato reage a ela.
  • Brinque com varinha perto da base, para que ele crave as unhas ali durante a brincadeira.
  • Deixe petiscos em cima ou ao redor.
  • Elogie e recompense cada vez que ele usar.

Um cuidado importante: a International Cat Care alerta para nunca segurar as patas do gato e forçá-lo a arranhar. Isso pode ser desconfortável e assustar o gato, e um arranhador associado a susto perde a graça.

4. Deixe o sofá menos interessante (por um tempo)

Enquanto o novo hábito se forma, proteja o trecho preferido. Cornell cita cobrir com manta, plástico ou fita dupla face, que as patas detestam. A International Cat Care também sugere cobertores pesados ou plástico adesivo e, para tirar o cheiro que “convida” a arranhar de novo, limpar a área com água e sabão neutro, sem perfume. Quando o gato estiver usando o arranhador com frequência, você retira a proteção aos poucos.

5. Cuide das unhas

Unhas aparadas fazem menos estrago, mas não resolvem sozinhas: a International Cat Care lembra que o corte não atende às necessidades do gato, que vai continuar querendo arranhar. Quando for necessário cortar, tire só a ponta transparente, longe do vaso sanguíneo. O passo a passo de como cortar a unha do cachorro e do gato ajuda a fazer isso sem estresse.

6. Reduza o estresse

Gato inseguro marca mais. Ofereça esconderijos, prateleiras e nichos altos, brincadeira diária e recursos suficientes para todos os gatos da casa. Falamos mais disso adiante.

Como escolher o arranhador ideal

TipoPara que gato funciona melhorAtenção
Poste vertical de sisalQuem arranha braço de sofá, cortina ou batente de péPrecisa ser alto e ter base pesada
Arranhador de paredeCasas pequenas; gatos que arranham paredes ou portasFixe bem, na altura do gato esticado
Placa ou rampa de papelãoQuem arranha tapete; filhotes e gatos idososTroque quando estiver muito gasto
Torre com plataformasGatos ativos, casas com mais de um gatoPesada e estável, perto da janela ou da sala
Tapete horizontal de sisal ou carpeteQuem arranha deitado, no chãoPrenda para não escorregar

Segundo a International Cat Care, filhotes e gatos idosos podem preferir superfícies mais macias, como arranhadores de papelão grandes, inclinados ou horizontais. Para quem tem artrose, um arranhador horizontal pode ser mais confortável que um poste alto.

O que não fazer

  • Não brigue, não grite, não borrife água. A International Cat Care explica que, se o gato arranha para cuidar das unhas ou se comunicar, você está punindo um comportamento natural, o que o confunde; se ele arranha por ansiedade, a punição aumenta o sofrimento e piora o quadro.
  • Não dê tapinha nem sustos. Cornell observa que os gatos não respondem bem à punição porque não fazem a ligação entre o castigo e o “crime”. Eles só aprendem a ter medo de você.
  • Não force as patas no arranhador.
  • Não jogue o arranhador velho fora assim que ele ficar “feio”. Para o gato, o arranhador marcado e desfiado costuma ser o preferido, porque já carrega o cheiro dele.
  • Não pense em desungulação. A seguir, explicamos por quê.

Desungulação (onicectomia) é mutilação e é proibida no Brasil

A desungulação, ou onicectomia, não é “tirar as unhas”. Como explica o Cornell Feline Health Center, trata-se da amputação dos ossos da ponta dos dedos, a última falange, de onde a unha nasce. Seria o equivalente a cortar a ponta de cada dedo de uma pessoa na altura da última articulação.

No Brasil, o procedimento é proibido. A Resolução CFMV nº 877/2008 do Conselho Federal de Medicina Veterinária proíbe, no art. 7º, as cirurgias desnecessárias ou que possam impedir a expressão do comportamento natural da espécie. O § 1º desse artigo, na redação dada pela Resolução CFMV nº 1.595/2024, lista a onicectomia em felinos domésticos entre os procedimentos proibidos na prática médico-veterinária, ao lado de caudectomia, conchectomia e cordectomia em cães. A proibição da onicectomia em felinos está na resolução desde 2008; a norma de 2024 apenas deu a redação atual do dispositivo.

Além da norma profissional, a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998, art. 32) pune quem pratica maus-tratos, fere ou mutila animais domésticos. Desde a Lei nº 14.064/2020, quando a vítima é cão ou gato, a pena é de reclusão de 2 a 5 anos, multa e proibição da guarda.

A posição internacional vai na mesma direção. A International Cat Care considera a desungulação, quando não há razão médica terapêutica genuína, um ato de mutilação e antiético. A entidade lista dor aguda e crônica, claudicação (mancar) e outras complicações cirúrgicas, além de pesquisas que associam gatos desungulados a mais mordidas, xixi e cocô fora da caixa, lambedura excessiva e agressividade.

Em resumo: além de ilegal, a cirurgia troca um sofá arranhado por um gato com dor e, muitas vezes, com problemas de comportamento bem piores.

E as capinhas de unha?

As capinhas plásticas coladas sobre as unhas aparecem como alternativa em materiais da International Cat Care e de Cornell. Segundo Cornell, elas precisam ser trocadas a cada 6 a 12 semanas. Funcionam para alguns gatos, mas não substituem o arranhador, porque o gato continua precisando arranhar para marcar e se alongar. Se quiser testar, peça orientação ao veterinário sobre tamanho e aplicação, e observe se o gato fica incomodado, lambe demais as patas ou tenta arrancar as capinhas.

Arranhando portas, janelas e tudo ao redor? Pode ser estresse

Quando o gato arranha muitos lugares ao mesmo tempo, principalmente perto de portas e janelas, a International Cat Care aponta uma possível sensação geral de insegurança. É como se ele reforçasse as “cercas” do território. Causas comuns:

  • tensão com outro gato da casa ou com gatos vistos pela janela;
  • chegada de um bebê, de um novo morador ou de um novo pet (veja como fazer a apresentação entre cachorro e gato);
  • obra, mudança ou alteração na rotina;
  • poucos recursos para todos: potes, caixas de areia, camas, esconderijos.

Nesses casos, aumentar e espalhar os recursos, oferecer lugares altos e manter uma rotina previsível costuma ajudar mais que qualquer proteção no sofá. Produtos com feromônio felino sintético podem complementar, já que, segundo a International Cat Care, gatos tendem a arranhar menos onde esse feromônio está presente. Se a casa também tem cachorro, entender a linguagem corporal do cachorro ajuda a perceber se ele está deixando o gato inseguro.

Quando procurar o veterinário ou um especialista

Converse com o veterinário se:

  • o gato passou a arranhar muito mais do que antes, de repente;
  • ele arranha e também se esconde, se lambe em excesso, faz xixi fora da caixa ou come menos (sinais de estresse);
  • parou de arranhar, sobe menos nos móveis ou parece rígido, o que pode indicar dor nas articulações, comum em gatos idosos;
  • as unhas estão grossas, encravando nas almofadas ou quebrando com frequência;
  • você já tentou o plano por algumas semanas sem resultado.

Para casos de comportamento mais complexos, o veterinário pode indicar um profissional especializado em comportamento felino.

Sofá preservado, gato feliz

Gato arranhando o sofá é um problema de endereço, não de caráter. Ofereça um arranhador firme e alto no lugar certo, recompense o uso, proteja o estofado por algumas semanas e cuide do bem-estar do seu gato. Com paciência, ele escolhe o arranhador sozinho, e você ganha um sofá inteiro e um gato tranquilo.

E se o seu felino é daqueles que reinam na sala, que tal mostrar ao mundo? Dá para eternizar a foto do seu gato no mural de 1 milhão de pets, com nome e um link opcional, em quadradinhos que o Brasil inteiro pode ver. Para conhecer mais sobre o jeitinho deles, vale também passear pelas curiosidades sobre gatos.

Perguntas frequentes

Como fazer o gato parar de arranhar o sofá?

Coloque um arranhador estável e alto ao lado do ponto que ele arranha, com textura parecida, e recompense cada uso com petisco, brincadeira ou erva-de-gato. Cubra o trecho do sofá com uma manta grossa ou fita dupla face por algumas semanas e afaste o arranhador aos poucos, se quiser, até o lugar definitivo.

Qual o melhor arranhador para gato?

O que o seu gato usa. Em geral, funcionam melhor arranhadores firmes, que não balançam, altos o bastante para ele se esticar inteiro e cobertos de sisal ou papelão. Observe se ele prefere arranhar de pé, em superfícies verticais, ou deitado, em superfícies horizontais.

Desungular gato é proibido?

Sim. A Resolução CFMV nº 877/2008, art. 7º, na redação dada pela Resolução nº 1.595/2024, lista a onicectomia em felinos domésticos entre os procedimentos proibidos na prática veterinária. A cirurgia amputa a ponta óssea de cada dedo e pode causar dor crônica e problemas de comportamento.

Cortar a unha do gato resolve o problema do sofá?

Reduz o estrago, mas não resolve, porque o gato continua precisando arranhar para marcar território e se alongar. O corte, quando necessário, deve tirar só a ponta transparente e vir junto com um bom arranhador.

Posso borrifar água no gato quando ele arranha o sofá?

Não. Borrifo, grito e tapinha são punições: o gato não associa o castigo ao sofá, passa a ter medo de você e, se já arranha por insegurança, fica ainda mais estressado. Ensine com recompensa onde ele pode arranhar.

Fontes consultadas

  1. Scratching on furniture and carpets (International Cat Care)
  2. Position statement on the declawing of cats (International Cat Care)
  3. Feline Behavior Problems: Destructive Behavior (Cornell Feline Health Center)
  4. Resolução CFMV nº 877, de 15 de fevereiro de 2008 (art. 7º, cirurgias mutilantes) (Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV))
  5. Resolução CFMV nº 1.595, de 22 de março de 2024 (Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV))
  6. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Lei de Crimes Ambientais), art. 32 (Planalto (Presidência da República))

Foto da capa: caff_17, via Flickr (CC0 (domínio público)).