Homenagem e saudade

Ponte do arco-íris: origem do poema, quem escreveu e o significado para quem perdeu um pet

Ponte do arco-íris: o que diz o poema, quem escreveu (e a polêmica sobre a autoria), de onde vem a ideia e por que ele conforta quem perdeu um pet.

Publicado em 12 min de leitura

Campo florido com flores amarelas e pinheiros ao fundo

Resposta rápida

A ponte do arco-íris é a imagem, criada num curto poema em prosa, de um prado "deste lado do céu" onde os pets que morreram ficam saudáveis e felizes, esperando o tutor para atravessarem juntos uma ponte. A autoria foi disputada por décadas. Desde 2023, a atribuição mais bem documentada é a da escocesa Edna Clyne-Rekhy, que o teria escrito em 1959, um dia depois da morte do seu labrador, Major.

Em resumo

  • A ponte do arco-íris é um poema em prosa sobre um lugar onde os pets esperam, saudáveis, pelo reencontro com o tutor.
  • O texto circulou por décadas sem autor, e a partir de 1995 foram feitos 15 pedidos diferentes de registro com o título 'Rainbow Bridge' nos Estados Unidos.
  • Desde 2023, a autoria mais bem documentada é a de Edna Clyne-Rekhy, que o teria escrito em 1959 pelo seu labrador Major.
  • Paul Dahm, William N. Britton e Wallace Sife estão entre os nomes que já foram ligados à origem do texto.
  • A expressão 'atravessou a ponte do arco-íris' virou um jeito delicado de contar que um pet morreu.

A ponte do arco-íris é a imagem, nascida num curto poema em prosa, de um lugar onde os pets que morreram voltam a ficar saudáveis e felizes, correndo num campo, até o dia em que reencontram o tutor e atravessam juntos uma ponte. Se você ouviu que o seu cachorro ou o seu gato “atravessou a ponte do arco-íris”, é dessa história que estavam falando.

O texto está entre os mais compartilhados por quem perdeu um bicho (clínicas veterinárias costumam entregar cópias a tutores enlutados, segundo a National Geographic), e mesmo assim passou décadas sem autor conhecido. Aqui você vai ler o que o poema diz, conhecer a história, cheia de reviravoltas, de quem o escreveu (incluindo o que ainda é incerto), descobrir de onde vem a ideia de uma ponte entre mundos e entender por que ele conforta tanta gente.

Se você está vivendo essa perda agora, sinto muito. Leia no seu ritmo, e, se quiser companhia para atravessar os primeiros dias, o guia sobre como superar a morte do pet foi escrito para isso.

O que é a ponte do arco-íris

A ponte do arco-íris (em inglês, “Rainbow Bridge”) é, ao mesmo tempo, um texto e uma ideia. O texto é um poema em prosa de pouco mais de 200 palavras (na versão original, em inglês) que descreve o que acontece com os animais depois da morte. A ideia é a de que existe um lugar de espera, bonito e tranquilo, onde eles ficam até o reencontro com quem os amou.

Com o tempo, a expressão se descolou do poema e virou linguagem do dia a dia. No Brasil, “foi para a ponte do arco-íris” ou “atravessou a ponte do arco-íris” é uma das formas mais usadas para contar que um pet morreu, ao lado de “virou estrelinha”. Ela aparece em postagens de despedida, em mensagens de clínicas e crematórios, em urnas e quadros de homenagem.

O que diz o poema, em resumo

Não vamos reproduzir o texto integral, por respeito aos direitos de quem o escreveu. Mas a história é simples e cabe num resumo, aqui contado com as nossas palavras:

  1. O lugar. Quando um animal muito amado morre, ele vai para um lugar “deste lado do céu” chamado ponte do arco-íris. Lá há campos e colinas para correr e brincar com outros bichos, comida, água fresca e sol. Ele fica aquecido e confortável.
  2. A cura. Os que estavam velhos ou doentes recuperam a saúde. Os que tinham se machucado ficam inteiros de novo, exatamente como lembramos deles nos melhores dias.
  3. A saudade. Eles estão felizes, com uma exceção: sentem falta de alguém muito especial que ficou para trás.
  4. O reencontro. Um dia, um deles para de brincar e olha para longe. Os olhos brilham, o corpo inteiro treme de alegria, e ele dispara pelo gramado, cada vez mais rápido. Ele viu você. Vocês se abraçam, e você olha de novo nos olhos que confiavam tanto em você.
  5. A travessia. Então, juntos, vocês atravessam a ponte do arco-íris.

Repare que o poema não se demora na dor nem fala de culpa: a doença e a velhice só aparecem para dizer que ficaram para trás. Ele fala de saúde recuperada, de espera paciente e de reencontro. É por isso que ele toca tão fundo quem viu o bicho envelhecer, adoecer ou partir de repente.

Quem escreveu o poema da ponte do arco-íris?

Esta é a parte mais curiosa da história, e vale contá-la com honestidade, porque por muitos anos ninguém soube a resposta, e várias pessoas reivindicaram o crédito.

Décadas como “autor desconhecido”

O poema se espalhou de mão em mão, em cópias, cartões e boletins de grupos de resgate de animais. O registro mais antigo conhecido na internet é de 7 de janeiro de 1993, no grupo de discussão rec.pets.dogs, que citava o texto a partir de um boletim (de 1992 ou anterior) de um grupo de resgate de cães da raça dogue alemão nos Estados Unidos.

A explosão veio em fevereiro de 1994, quando um leitor de Grand Rapids, no estado de Michigan, mandou à famosa coluna de conselhos “Dear Abby” uma cópia que tinha recebido de uma sociedade protetora dos animais. A coluna, publicada em jornais de todo o país e lida por cerca de 100 milhões de pessoas, imprimiu o poema, avisou que o nome do autor estava faltando e pediu aos leitores ajuda para identificá-lo. Ninguém apareceu. Segundo a National Geographic, a partir de 1995 foram feitos 15 pedidos de registro diferentes com o título “Rainbow Bridge” no Escritório de Direitos Autorais dos Estados Unidos (U.S. Copyright Office).

Os nomes que já levaram o crédito

Durante esse período, o texto foi atribuído a várias pessoas. As mais citadas:

  • Paul Dahm, conselheiro de luto do Oregon, apontado com frequência como autor do poema, que teria escrito em 1981. Ainda hoje há cópias que circulam com o nome dele embaixo do texto. O Tripawds, comunidade on-line de tutores de cães e gatos amputados, registrava em 2009 essa atribuição com a ressalva de que ninguém sabia ao certo, e atualizou a página em fevereiro de 2023 com o nome da autora.
  • William N. Britton, que em 1994 afirmou ter ouvido a história de um xamã indígena norte-americano.
  • Wallace Sife, que presidia a Association for Pet Loss and Bereavement (associação americana de apoio ao luto pet) e acreditava que a ponte era uma variação do seu poema “All Pets Go to Heaven” (“Todos os pets vão para o céu”).

A investigação de 2023 e Edna Clyne-Rekhy

A resposta mais sólida até hoje veio de um historiador da arte, o americano Paul Koudounaris, que passou cerca de dez anos trabalhando num livro sobre cemitérios de animais e esbarrava no poema o tempo todo. Ele montou uma lista com uns 25 nomes ligados de alguma forma ao texto e foi investigando e descartando um por um. Um desses nomes veio de uma menção num grupo de conversa on-line a uma certa “Edna Clyde, da Escócia”, que teria escrito o poema quando o cachorro do filho morreu. Era a única mulher e o único nome de fora dos Estados Unidos na lista. Segundo a Mental Floss, o nome e a história estavam um pouco errados, mas bastaram para que ele chegasse à autora.

A pista levou a Edna Clyne-Rekhy, artista escocesa que tinha 82 anos em 2023. Ela contou que escreveu o texto em 1959, aos 19 anos, um dia depois da morte do seu labrador, Major, que morreu nos seus braços. Ainda chorando muito, ouviu da mãe a sugestão de escrever o que estava sentindo. Sentada na sala da casa da família, perto de Inverness, escreveu a primeira linha numa folha branca, e o resto saiu de uma vez, enchendo a frente e o verso. “Simplesmente veio na minha cabeça, era como se eu estivesse conversando com o meu cachorro”, disse ela à National Geographic.

Edna nunca publicou o poema. Mostrou o texto a alguns amigos, que pediram para levar cópias; ela datilografou essas cópias, mas sem o próprio nome. Depois, morou anos na Índia e mais tarde numa fazenda de oliveiras na Espanha, o que ajuda a explicar por que não fazia ideia de que o texto tinha corrido o mundo. Ela ainda guardava o rascunho original escrito à mão, que Koudounaris examinou. Ele detalhou a investigação no começo de fevereiro de 2023, e a National Geographic publicou a história no dia 22 do mesmo mês.

O que ainda é incerto

A atribuição a Edna Clyne-Rekhy é hoje a mais aceita e a mais bem documentada: há um manuscrito, um relato detalhado e uma investigação que descartou as outras reivindicações. Ainda assim, por honestidade, vale registrar os limites: não existe uma edição impressa de 1959, e os registros públicos mais antigos do poema são do começo dos anos 1990. O caminho exato do texto entre as cópias datilografadas na Escócia e os boletins americanos não está documentado. Koudounaris notou que as versões em circulação têm pequenas diferenças de redação, sinal de que o texto já vinha sendo copiado havia algum tempo, mas a reconstrução depende, em boa parte, do manuscrito guardado pela própria autora e do relato dela.

Na prática, a forma mais justa de creditar o poema hoje é “texto atribuído a Edna Clyne-Rekhy”. Se você encontrar o nome de Paul Dahm ou a indicação “autor desconhecido”, saiba que isso reflete as décadas de incerteza, e não necessariamente má-fé.

AnoO que aconteceu
1893A canadense Margaret Marshall Saunders publica “Beautiful Joe”, romance narrado por um cão maltratado
1902Sai a continuação, “Beautiful Joe’s Paradise”, com um paraíso para os animais
1959Segundo o relato e o manuscrito de Edna Clyne-Rekhy, ela escreve o poema após a morte de Major
1981Ano em que o texto costumava ser atribuído a Paul Dahm
1993Primeiro registro conhecido do poema na internet (7 de janeiro)
1994A coluna “Dear Abby” publica o poema sem o nome do autor (fevereiro); William N. Britton diz ter ouvido a história de um xamã
1995 em diante15 pedidos de registro com o título “Rainbow Bridge” nos Estados Unidos
2023Paul Koudounaris divulga a investigação, e a National Geographic publica a história (fevereiro)

De onde vem a ideia de uma ponte entre mundos

O poema é moderno, mas a imagem é antiga. Na mitologia nórdica, a Bifröst é uma ponte de arco-íris que liga o mundo dos humanos ao mundo dos deuses, e a semelhança costuma ser lembrada quando se fala da ponte dos pets.

Na literatura, um antecedente curioso é “Beautiful Joe’s Paradise”, de 1902, continuação do romance “Beautiful Joe” (1893), da escritora canadense Margaret Marshall Saunders. O livro imagina um paraíso verde onde os animais esperam pelos donos e se recuperam dos maus-tratos que sofreram em vida, embora cheguem lá de balão, e não por uma ponte.

Para Koudounaris, parte do sucesso do poema vem de preencher uma lacuna: muitas pessoas criadas no cristianismo ouviram de pais ou padres que os animais não têm alma e, por isso, não iriam para o céu. Nas palavras dele à National Geographic, a ponte “nos dá um motivo para ter esperança”. E faz isso sem exigir nenhuma crença específica.

O que significa “atravessou a ponte do arco-íris”

Dizer que um pet “atravessou a ponte do arco-íris” é uma forma carinhosa de contar que ele morreu, sem a dureza da palavra. Muita gente prefere a expressão ao contar a notícia nas redes sociais ou no grupo da família, e ela costuma ser recebida com acolhimento por outros tutores, que reconhecem a referência na hora.

Há quem não goste, e tudo bem: para algumas pessoas, a imagem soa infantil ou não combina com as suas crenças. Não existe jeito certo de falar da própria perda.

Com crianças, a expressão pede um cuidado extra. A cartilha da Universidade Paulista (UNIP) sobre a despedida dos animais de estimação recomenda explicações claras, como “ele morreu” ou “o corpo dele parou de funcionar”, para que a criança entenda o que aconteceu sem falsas expectativas. A ponte pode vir depois, como uma história bonita para lembrar dele saudável, e não como substituta da verdade. O guia sobre como explicar a morte do pet para uma criança mostra como fazer isso em cada idade.

Por que o poema da ponte do arco-íris conforta tanto

Alguns motivos ajudam a entender o fenômeno, e boa parte deles aparece nos materiais de apoio ao luto:

  • Dá palavras a uma dor pouco reconhecida. Muita gente ouve que “era só um animal” ou “foi somente um cachorro” e sente vergonha de sofrer. A cartilha da Universidade Paulista (UNIP) sobre a despedida dos animais de estimação chama isso de luto invisibilizado, aquele que a sociedade não reconhece. Compartilhar a ponte do arco-íris é um jeito de dizer “estou de luto” que os outros tutores entendem de imediato.
  • Devolve a imagem do bicho saudável. Depois de uma doença longa, de uma velhice difícil ou de uma eutanásia, a última lembrança pode ser dolorosa. O poema troca essa imagem pela do pet correndo no campo.
  • Promete que o vínculo não acabou. A psicologia do luto fala em vínculos contínuos (conceito de Klass, Silverman e Nickman, de 1996, citado na cartilha da UNIP): o amor por quem morreu não precisa ser encerrado, ele muda de forma. A espera na ponte é uma tradução poética dessa ideia.
  • Não exige uma fé específica. O poema menciona o céu, mas não se prende a nenhuma doutrina, e a Mental Floss aponta essa abertura como parte do seu sucesso. Cristãos, espíritas, pessoas de outras religiões e quem não tem religião costumam lê-lo cada um à sua maneira, como crença ou como metáfora.

Se você quer entender mais sobre por que a perda de um pet dói tanto, e o que ajuda de verdade, o guia como superar a morte do pet aprofunda esses pontos.

Como usar a ponte do arco-íris numa homenagem

A ponte pode inspirar despedidas e lembranças bonitas. Algumas ideias:

  1. Ler o texto num ritual de despedida, em casa, com a família reunida em torno de uma foto dele.
  2. Imprimir um trecho junto com a foto preferida e colocar num porta-retrato, no cantinho da memória ou dentro da caixa de lembranças.
  3. Mandar para um amigo que perdeu o pet, junto com uma mensagem pessoal. As frases para pet que morreu ajudam a escrever as primeiras linhas.
  4. Fazer um desenho com as crianças do campo onde ele estaria correndo, com as cores do arco-íris.
  5. Escolher uma urna ou uma placa com o tema, se a família optou pela cremação. O guia sobre cremação de pet explica como funciona e quais são os tipos.
  6. Plantar um canteiro colorido no lugar onde ele gostava de deitar, como um pedacinho do prado do poema.

Seja qual for a homenagem, dê o crédito à autora (“texto atribuído a Edna Clyne-Rekhy”). E, se quiser mais inspiração, o guia de homenagem para pet reúne 25 ideias, para fazer em vida e depois.

Do lado de cá da ponte

A ponte do arco-íris atravessou o mundo sem nome de autor, de cópia em cópia, porque dizia algo que muita gente precisava ouvir: que o bicho amado está bem, que a saudade é recíproca e que o reencontro é possível. Hoje sabemos que, muito provavelmente, ela nasceu da dor de uma jovem escocesa pelo seu labrador. Talvez por isso pareça tão verdadeira para quem a lê.

Enquanto o reencontro não chega, a lembrança dele pode ganhar um lugar do lado de cá. Quando você quiser, dá para eternizar a foto e o nome do seu pet no mural de 1 milhão de pets, num quadradinho que o Brasil inteiro pode ver.

Perguntas frequentes

Quem escreveu o poema da ponte do arco-íris?

Desde 2023, a atribuição mais aceita é a da escocesa Edna Clyne-Rekhy, que teria escrito o texto em 1959, aos 19 anos, depois da morte do seu labrador Major. A identificação foi feita pelo historiador da arte Paul Koudounaris e divulgada pela National Geographic, com base no manuscrito original guardado por ela. Antes disso, o poema circulou como 'autor desconhecido' e foi creditado a outras pessoas, como Paul Dahm.

O que significa 'atravessou a ponte do arco-íris'?

É uma forma delicada de dizer que um animal de estimação morreu. A expressão vem do poema, em que os pets esperam o tutor num prado antes de atravessarem juntos a ponte. No Brasil, ela é muito usada em redes sociais, mensagens de clínicas e conversas entre tutores.

A ponte do arco-íris é uma crença religiosa?

Não pertence a nenhuma religião específica. É um texto moderno, escrito como consolo pessoal, que usa imagens parecidas com as de várias tradições, como a ponte Bifröst da mitologia nórdica. Cada família pode lê-lo como fé, como metáfora ou simplesmente como uma forma bonita de lembrar.

Posso usar o poema da ponte do arco-íris numa homenagem?

Para uma despedida, um cartão ou uma lembrança pessoal, muita gente usa, e o gesto mais justo é dar o crédito: 'texto atribuído a Edna Clyne-Rekhy'. Se a ideia for publicar o texto completo, imprimir para vender ou usar comercialmente, verifique antes os direitos sobre a obra.

Como explicar a ponte do arco-íris para uma criança?

Primeiro, diga com clareza que o pet morreu e que o corpo dele parou de funcionar. Depois, se fizer sentido para a família, apresente a ponte do arco-íris como uma história bonita para lembrar dele saudável e feliz. Evite dar a entender que ele vai voltar, para não criar falsas expectativas.

Fontes consultadas

  1. The 'Rainbow Bridge' has comforted millions of pet parents. Who wrote it? (National Geographic (Rachel Nuwer), 22 de fevereiro de 2023)
  2. 'The Rainbow Bridge': The Emotional (and Once-Lost) History of the Popular Pet Memorial Poem (Mental Floss (Lorna Wallace), 6 de junho de 2024)
  3. What is the Rainbow Bridge? (Tripawds (2009, atualizado em fevereiro de 2023))
  4. Cuidando da despedida dos animais de estimação (cartilha) (Universidade Paulista (UNIP), Mestrado em Práticas Institucionais em Saúde Mental, 2026)
  5. Rainbow Bridge (pets) (Wikipedia (em inglês))
  6. Beautiful Joe (Wikipedia (em inglês))

Foto da capa: Intermountain Region US Forest Service, via Flickr (Domínio público).

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